Calor em alta e chuva mais rara

As mudanças climáticas poderão aumentar em mais de dois graus celsius a temperatura mínima média de mais de 90% dos municípios de Pernambuco e levar alguns territórios do estado a ter dias seguidos sem chuvas em pelo menos 54 ocasiões por ano. As estatísticas fazem parte de estudo inédito desenvolvido pela Fiocruz e Ministério do Meio Ambiente para avaliar o potencial de vulnerabilidade aos impactos provocados pelo clima nos próximos anos nos municípios do Brasil. A pesquisa foi apresentada ontem em Boa Viagem. 

Pernambuco é um dos seis estados integrantes do projeto. Os pesquisadores calcularam o Índice de Vulnerabilidade Municipal às Mudanças Climáticas de cada um dos 184 municípios, baseando-se em dados como incidência de doenças, índices de pobreza, níveis de desmatamento, susceptibilidade a desastres naturais e estruturas de serviços. Os dados foram cruzados com dois cenários de mudanças climáticas: um pessimista, de radiação solar, e outro otimista, para o período de 2041 a 2070.

Em Pernambuco, há cidades que poderão ter as chuvas reduzidas em até 37,4 mm por ano, como Tacaratu, e outros que verão os dias intermitentes sem precipitação aumentarem, como a Mata Norte. Quando considerada a teia social, econômica e ambiental, os municípios mais vulneráveis são Afrânio, Lagoa Grande, Santa Maria da Boa Vista, Orocó e Ipubi, no semiárido.

Os indicadores, segundo o coordenador do projeto e pesquisador do Centro de Pesquisas René Rachou (CPqRR/Fiocruz Minas), Ulisses Confalonieri, não são coincidência. “O cenário climático aponta para diminuição das chuvas no estado como um todo e aumento da temperatura média. No semiárido, era previsível uma situação pior, pois há uma carga de doenças grande, uma população mais pobre, economia deprimida e seca em pior situação.”

O Recife, apesar dos índices elevados de doenças endêmicas – foram considerados, entre outras, as taxas de incidência de dengue -, tem boa capacidade adaptativa. Por isso, o índice de vulnerabilidade foi considerado baixo. “As regiões metropolitanas têm problemas de saneamento, mas o aparelhamento público é bom em comparação ao interior”, acrescentou. Na RMR, apenas Abreu e Lima integra a lista dos municípios menos vulneráveis.

O levantamento poderá sofrer mudanças, pois ainda serão compilados os dados de cobertura vegetal em Pernambuco, a partir de pesquisa em curso da Universidade Federal Rural (UFRPE). Fernando de Noronha não integrou a pesquisa, mas deverá fazer parte do relatório final.

Pernambuco foi o segundo estado onde os dados foram apresentados. O primeiro foi o Espírito Santo. Foram calculados também os índices do Amazonas, Maranhão, Mato Grosso do Sul e Paraná. A ideia é que o material seja disponibilizado, nos próximos meses, para cada município e, dessa forma, baseie as políticas públicas em áreas mais vulneráveis com a finalidade de mitigar possíveis impactos.

Futuro seco

Em um cenário pessimista, com aumento constante da radiação e da emissão de gases do efeito estufa, além da inexistência de políticas climáticas, ocorreria em Pernambuco:

Variação no índice de precipitação total

De -4,4 mm (no Recife) a – 37,4 mm (Tacaratu) menos de chuvas por ano

Dias secos consecutivos no ano

Aumento de 3,1 dias (em Afrânio e Dormente) a 54,9 dias (em Nazaré da Mata) número de dias seguidos sem chuva

Aumento da Temperatura

De 1,9°C a 2,2°C a mais na temperatura mínima média

No Recife

Provavelmente ocorrerá uma diminuição de 4,4 mm da precipitação total anual

Possivelmente haverá um aumento de 53 dias no número de dias seguidos sem chuva

Poderá apresentar um aumento de 1,9°C na temperatura mínima

Índice de Vulnerabilidade Municipal (IVM)

5 municípios de Pernambuco mais vulneráveis 

  • Afrânio
  • Lagoa Grande
  • Santa Maria da Boa Vista
  • Orocó
  • Ipubi

5 municípios de Pernambuco menos vulneráveis

  • Abreu e Lima
  • Rio Formoso
  • Barreiros
  • Tamandaré
  • São José da Coroa Grande

O litoral de Pernambuco

  • 1,50m é a altura de 90% das ondas que atingem hoje a costa do estado
  • Em 30 anos, a altura das ondas poderá aumentar 0,75m
  • A erosão é evidente em 50% das praias do estado

No mundo

O nível do mar poderá aumentar até 0,82 m em 100 anos

Fonte: Fiocruz – “Construção de Indicadores de Vulnerabilidade da População como Insumo para a elaboração das ações de adaptação à mudança do clima no Brasil”, Departamento de Oceanografia da UFPE.

Informações: Diário de Pernambuco

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