Arlindo Ferreira do Santos: O prefeito referência

Por Rinaldo Remígio*

Na pequena e calorosa Sertânia, encravada no sertão do Moxotó pernambucano, alguns nomes não se apagam com o tempo — permanecem vivos nos becos calçados com esforço, nas escolas erigidas com propósito, nas histórias contadas ao redor da mesa ou da calçada ao cair da tarde. Entre esses nomes, um se destaca com a força de quem não apenas viveu em Sertânia, mas que também viveu por Sertânia: Arlindo Ferreira do Santos, o Prefeito Referência.

A jornada desse homem começa não com títulos ou cargos, mas com a determinação silenciosa de um jovem de apenas 16 anos, recém-formado no curso ginasial, que aportou em Sertânia oriundo da vizinha cidade de Arcoverde, em 22 de fevereiro de 1948 para trabalhar com o Sr. Epaminondas Morais. A cidade ainda mal o conhecia, mas, cedo, aprenderia a reconhecê-lo como alguém que sabia ouvir, articular e liderar.

Contador de formação, Arlindo foi além dos números. Tornou-se educador, ensinando matemática no Colégio Olavo Bilac, a convite do respeitado diretor, o Dr. Abílio Monteiro. Mais que professor, foi também um visionário, fundando junto a Otacílio Borges e João Arruda a primeira Escola Técnica de Comércio da região, iniciando com o curso de contabilidade, um feito que abriu portas para muitos jovens sertanienses.

Mas talvez onde mais brilhou foi onde muitos não ousam ir: nas salas simples de alfabetização de adultos, ao lado do Pastor Abel Santos, no Bairro Alto do Rio Branco. A luta contra o analfabetismo era para ele tão importante quanto qualquer grande obra — talvez mais.

Sua vida pública floresceu naturalmente. De promotor adjunto nomeado pelo Governo de Pernambuco, neste cargo ficou por 8 anos, a secretário de finanças do município, ele conhecia os bastidores da administração como poucos. Em 1963, o povo reconheceu seu valor nas urnas e o elegeu prefeito pela primeira vez. Repetiu o feito em 1976, num raro gesto de reeleição em tempos difíceis, movido não por promessas, mas por realizações.

Seu legado como gestor é visível: o terminal rodoviário, o centro social urbano, as vilas da Cohab, a Biblioteca Municipal, a pavimentação de milhares de metros quadrados de ruas, a criação da Secretaria de Saúde, e a chegada de três instituições financeiras de peso — Banco do Brasil, CEF e Bandepe e muitas outras obras e equipamentos públicos. Um administrador à frente de seu tempo, que entendia que o progresso de uma cidade se mede por tijolos assentados com dignidade e políticas pensadas com coração. Além das outras estruturantes do município ele pensou também nos menos favorecidos ao saírem para estudar na capital do estado, criou a Casa do Estudante de Sertânia no Recife.

No entanto, se perguntarem à sua família qual foi sua maior obra, provavelmente não dirão uma rua ou um prédio. Dirão: “foi a família que construiu com dona Isaura Xavier, o amor da sua vida”, juntos tiveram dez filhos, vinte netos e dezessete bisnetos são a prova viva de que Arlindo não viveu apenas para o público, mas também para o privado, como um pai amoroso, esposo dedicado e cristão convicto.

Em 27 de novembro de 2007, Arlindo Ferreira do Santos se despediu da vida. Mas, como poucos, entrou pela porta da frente da história, onde os nomes não precisam ser lembrados porque jamais foram esquecidos.

Arlindo foi mais do que prefeito. Foi referência. E Sertânia, ao lembrar-se dele, não recorda apenas um homem, mas um tempo em que a política era feita com propósito, e a liderança se conquistava pelo exemplo.

Sertânia não apenas acolheu Arlindo. Foi também por ele transformada. E continuará sendo, enquanto houver memória e gratidão.

*Administrador, contador, historiador e professor universitário