OPINIÃO DO LEITOR – Sertânia e a nova secretaria: avanço ou retrocesso?

A recente Lei Municipal que criou a nova Secretaria Municipal de Segurança Cidadã, Cultura, Juventude, Esportes e Turismo em Sertânia marca uma reconfiguração significativa na estrutura administrativa da cidade — com a extinção da antiga Secretaria de Cultura, Esportes, Juventude e Turismo. A decisão tem gerado debate e merece uma análise cuidadosa sob a perspectiva da gestão pública, da participação social e, sobretudo, do impacto nas políticas voltadas à cultura e juventude sertaniense.

A princípio, pode parecer interessante agrupar áreas distintas sob uma mesma secretaria. Fala-se em “integração”, “economia de recursos”, “visão transversal das políticas públicas”. Mas será que essa junção improvável entre segurança pública e setores historicamente vinculados à promoção da cidadania e do bem-estar juvenil é, de fato, benéfica?

O perigo da supersecretaria: foco diluído e prioridades em conflito

Cultura, Juventude, Esportes, Turismo e Segurança são áreas extremamente complexas e demandam atuação técnica, planejamento e investimentos próprios. Colocá-las sob um mesmo guarda-chuva pode significar, na prática, o enfraquecimento de cada uma delas. Quem perde mais? Certamente, as áreas historicamente mais negligenciadas, como a cultura e as políticas para a juventude — que agora competirão diretamente com demandas de segurança pública, muitas vezes urgentes e de alto custo.

Como manter, por exemplo, a programação de um centro cultural, se os recursos da secretaria forem destinados à compra de equipamentos de vigilância urbana? Como garantir apoio a jovens atletas ou artistas, quando o discurso político prioriza o “combate à criminalidade”? O risco de apagamento simbólico e orçamentário dessas áreas é real — e preocupante.

Segurança Cidadã: o corpo estranho da nova secretaria

A inserção da Segurança Cidadã nesse conjunto é, sem dúvida, o aspecto mais polêmico. Embora a segurança seja, sim, um direito social e deva ser tratada de forma cidadã e preventiva, sua dinâmica exige articulação complexa com polícias, sistema judiciário, protocolos de inteligência e gestão de crises — muito distante do universo da cultura ou do esporte.

Mais que isso: há o risco de que equipamentos culturais e espaços de convivência juvenil sejam associados à vigilância e repressão, afastando justamente aqueles que mais precisam deles. A juventude não pode ser tratada como “caso de segurança”, mas como protagonista de políticas públicas de educação, cultura e oportunidades.

Oportunidade ou armadilha política?

Outra preocupação é o uso político-partidário de uma secretaria com tantas frentes de atuação. Ao concentrar eventos culturais, torneios esportivos, feiras turísticas e até ações de segurança, abre-se um leque para práticas clientelistas e favorecimentos. A ausência de conselhos fortes e de participação popular agrava esse cenário.

E se a mudança for inevitável? Caminhos possíveis

Se a criação dessa nova secretaria for um caminho sem volta, ao menos deve ser feita com responsabilidade. Isso exige:

Subsecretarias autônomas, com orçamento próprio e lideranças técnicas qualificadas;

Planejamento integrado, com metas claras por área e mecanismos de prestação de contas;

Participação social real, por meio de conselhos temáticos com poder deliberativo;

Transparência total nos gastos e nas decisões políticas;

Diálogo constante com a população e os profissionais das áreas envolvidas.

O que está em jogo

Mais do que uma mudança administrativa, está em jogo a forma como Sertânia enxerga suas juventudes, sua produção cultural, seu esporte amador, seu potencial turístico e o próprio sentido da cidadania. Tratar essas áreas como “acessórias” ou subordinadas à lógica da segurança é um erro grave — e injusto com quem há décadas luta para manter viva a cultura local e criar alternativas para a juventude sertaniense.

Concentrar tanto poder em uma única estrutura pode parecer eficiente no papel, mas na prática corre o risco de produzir mais invisibilidade, desorganização e descontinuidade. Em tempos em que se exige mais escuta, descentralização e cuidado com as políticas públicas, Sertânia precisa escolher entre o atalho da centralização ou o caminho – mais árduo, porém necessário – da valorização das suas múltiplas identidades.

Antônio Carlos Moreno