OPINIÃO – Zumbi ou Luiz Gama? Por que essa disputa é uma armadilha perigosa

Ao me deparar com esse card nas redes sociais, onde se tenta colocar Zumbi dos Palmares e Luiz Gama em lados opostos. Nele, Zumbi é pintado como um líder violento que “executava fugitivos”, enquanto Luiz Gama é celebrado como o intelectual que “libertou mais de 500 escravos sem derramar sangue”.

À primeira vista, pode parecer apenas um exercício de comparação histórica. Mas, na realidade, esse material é uma peça de guerra político-cultural que distorce fatos para servir a uma agenda específica: deslegitimar a resistência negra e criar divisões onde deveria haver união.

Vamos desmontar essa armadilha e entender por que Zumbi e Luiz Gama não são rivais, mas sim duas faces da mesma moeda na luta pela liberdade.

Zumbi dos Palmares: O Símbolo da Soberania

As críticas a Zumbi no meme giram em torno de três eixos frágeils:

· “Executava negros que fugiam do quilombo”: Esta é a acusação mais grave e a mais descontextualizada. Palmares não era um resort; era um estado autônomo em guerra permanente contra o exército colonial holandês e português. Imagine a situação: um território sob cerco constante, onde a traição poderia significar a aniquilação de toda uma comunidade. As regras internas eram severas, sim, como em qualquer nação em guerra naquele período. A violência de Palmares era uma resposta necessária à violência extrema e genocida da escravidão.
· “Não conquistou a liberdade de ninguém”: Esta afirmação ignora o principal. O próprio Quilombo dos Palmares era a liberdade conquistada. Por mais de um século, ele foi um símbolo vivo de resistência, abrigando milhares de pessoas libertas. Sua existência provava, concretamente, que uma sociedade livre e autônoma, fora do sistema escravista, era possível. A liberdade ali não era individual, mas coletiva e soberana.
· “Adorado pelo Movimento Negro”: Zumbi foi elevado a herói nacional por representar a luta pela terra, a autodefesa e a formação de uma identidade negra livre. Ele não é um santo imaculado, mas um símbolo poderoso de que a liberdade não é dada, é conquistada e defendida.

Luiz Gama: O Estratégista da Lei

Por outro lado, o meme acerta ao destacar os feitos de Luiz Gama, mas falha ao tentar opô-lo a Zumbi.

· “Libertou mais de 500 escravos” / “Advogado” / “Intelectual”: São afirmações precisas e que mostram a genialidade de sua estratégia. Luiz Gama, ele próprio um ex-escravizado, usou as ferramentas do opressor – o sistema jurídico – para miná-lo por dentro. Ele demonstrou que a própria lei do Império (a Lei Feijó de 1831) poderia ser usada para libertar pessoas traficadas ilegalmente. Sua atuação foi brilhante, legal e profundamente intelectual.
· “Esquecido pelo Movimento Negro”: Esta é uma meia-verdade desatualizada. É fato que Luiz Gama foi apagado pela história oficial por décadas. No entanto, nas últimas duas décadas, houve um enorme e bem-sucedido esforço de resgate de sua figura por historiadores, juristas e, sim, pelo movimento negro. Hoje, ele é cada vez mais reconhecido como um dos maiores heróis brasileiros.
· “Conquistou sua liberdade sem derramar sangue”: Esta é a grande força do legado de Gama. Sua batalha foi nos tribunais e na imprensa, usando a retórica e a lei como armas. No entanto, é crucial notar que ele também era um abolicionista republicano radical que, em seus escritos, defendia abertamente a possibilidade de uma revolução armada caso a abolição não fosse conquistada pela via pacífica.

A Falsa Dicotomia: A Armadilha por Trás do Meme

O grande problema do material não são os dados isolados, mas a oposição artificial que ele cria.

  1. Formas de Luta Complementares: A resistência contra a escravidão foi travada em múltiplas frentes. A luta física e territorial de Palmares criou um mito fundador e um espaço de liberdade real. A luta jurídica e intelectual de Luiz Gama atacou as bases legais do sistema, causando prejuízos financeiros e deslegitimando a escravidão. Uma não existiria sem o contexto da outra. Sem a resistência quilombola, a escravidão seria ainda mais absoluta. Sem a atuação de abolicionistas como Gama, a abolição legal poderia ter demorado ainda mais.
  2. Anacronismo: Julgar as ações de Zumbi no século XVII com a lente dos direitos humanos do século XXI é um erro histórico crasso. O contexto de guerra e sobrevivência de Palmares exigia um código de conduta que não pode ser simplificado em uma moralidade binária de “bom” ou “ruim”.
  3. Reducionismo: Reduzir Zumbi a “executar fugitivos” é apagar a grandiosidade de um projeto de sociedade livre. Reduzir Luiz Gama a ser “esquecido” é ignorar seu resgate e seu papel como um intelectual revolucionário.

Dois Heróis, Uma Única Luta

O material das redes sociais serve como um disparador de debate, mas falha redondamente como análise histórica. Ele tenta desconstruir uma suposta “santificação” de Zumbi, mas o faz criando uma nova “santificação” de Luiz Gama e, pior, colocando-os em lados opostos de uma batalha que nunca existiu.

A verdadeira lição é que a luta pela liberdade é multifacetada.

Zumbi dos Palmares e Luiz Gama são complementares. Um representa a construção de um território livre e a defesa armada da comunidade. O outro representa o ataque inteligente às estruturas de poder usando a lei e a palavra.

Celebrar e estudar ambos, em toda a sua complexidade, é essencial para entendermos a resistência negra no Brasil. Não caia na armadilha de escolher um lado. Nossa história é rica o suficiente para honrar a ambos.

Álvaro de Góis Melo, Professor de História, Pós-Graduado em Ensino de Sociologia e de Gestão de Cidades (UPE), Mestrando em Sociologia (UFCG).