Há um ruído que não vem do caos. Vem do silêncio que foi quebrado. O que aconteceu em uma formatura em Pernambuco foi mais do que um tumulto; foi um grito de fadiga coletiva, ecoando dentro de um salão de festas. A notícia já se espalhou: pais interrompendo uma música, cadeiras voando, o baile virando um ato público de resistência. E a pergunta que fica, incômoda e necessária, é: por que só agora? Por que levou tanto tempo para alguém, enfim, puxar o plugue?
A narrativa fácil é a do exagero. “Era só uma música”. “Os jovens ouvem pior”. “É censura”. São frases pré-fabricadas, usadas para embalar o desconforto de volta para a prateleira. Mas vamos desembalar. A letra em questão, segundo os relatos, não era sobre amor não correspondido ou dor de cotovelo. Era um manual de agressão e feminicídio disfarçado de batida. Em um país que enterra, em média, quatro mulheres por dia vítimas de feminicídio, chamar isso de “entretenimento” não é só mau gosto. É cumplicidade.
Aqui, os números não mentem, mas costumam ser ignorados. Pernambuco, o palco desse levante doméstico, Pernambuco registrou, até o fim de novembro, 82 casos de feminicídio, número superior ao total de 2024, quando 76 mulheres foram mortas em razão do gênero. O Ligue 180 no estado viu as denúncias de violência subirem 37%. São milhares de vozes pedindo socorro, muitas vezes dentro de casa, ao som de uma música como essa na TV ou no rádio. Então, quando esses pais se levantaram, eles não estavam protestando contra um hit do momento. Estavam tapando um buraco por onde a cultura do estupro e da morte escorra, sorrateira, para a festa de formatura de seus filhos.
E a escola nisso? Ah, a escola tentou o clássico: “a produtora que mandou”. Terceirizou o som, o buffet e, de quebra, a responsabilidade moral. É a falácia mais perigosa do nosso tempo: achar que se pode terceirizar a consequência do que se permite. A formatura é um ritual da instituição, um evento que carrega seu nome e seu suposto valor formativo. O que se toca ali, o que se celebra, o que se normaliza com o silêncio dos adultos, também é currículo. Um currículo oculto que ensina, principalmente às meninas presentes, que suas vidas podem ser a letra de uma música de fundo. E aos meninos, que a posse e a violência são um refrão aceitável.
Houve quem visse vandalismo onde havia coragem. Houve quem falasse em “linchamento” cultural onde havia, na verdade, um controle remoto social sendo apertado no “desligar”. Esses pais, em sua reação visceral, fizeram o papel que muitas instituições abandonaram: o de curadores de ética. Eles lembraram a todos que liberdade de expressão tem endereço certo: ela termina onde começa a incitação ao crime. Não há arte em romantizar um corpo espancado. Não há poesia na justificativa de um assassinato.
O verdadeiro incômodo deste episódio não é a baderna. É o espelho. Ele nos mostra o abismo entre o que toleramos passivamente e o que, no fundo, sabemos ser intolerável. Mostra que o cansaço virou ação. Que o “não” saiu dos grupos de WhatsApp e foi para o meio da pista de dança.
A festa acabou mais cedo, sim. Mas talvez tenha começado, ali, uma outra: a festa de quem se recusa a dançar conforme a música que mata. Em um mundo de omissões ensurdecedoras, às vezes é preciso jogar uma cadeira no palco — metaforicamente ou não — para que o show da barbárie pare.
E, no fim das contas, fica o recado: se a escola não educa para a vida, a vida educa na marra. E naquela noite, foram os pais quem deram a aula.
Alvaro Gois
Pai, Professor, Mestrando em Sociologia (UFCG)
