São João & Copa do mundo: o silêncio das ruas e o resgate da nossa identidade

Por Josessandro Andrade *

As ruas de Sertânia estão silenciosas. Estamos na época em que o Brasil se une pelo futebol e o Nordeste pulsa com o São João. Mesmo assim, quem caminha pela nossa cidade quase não vê sinais de festa. Falta cor, falta fogueira e falta o brilho nos olhos do nosso povo.

O poder público se omitiu. Não se vê uma bandeirinha ou um banner sequer para motivar a população.

Colocar apenas um telão na praça principal não é o bastante. Isso os bares locais já fazem muito bem. O papel da cultura é ir além. É preciso despertar o sentimento de identidade nacional, a nossa “Pátria de chuteiras”, como dizia Nelson Rodrigues. Mais do que isso, é preciso valorizar a nossa essência cultural nordestina, que o São João tão bem representa.

Escrevo no dia do segundo jogo do Brasil, e a está altura não se tem notícias se haverá São João oficial, sequer se teremos Palhoção para apresentação de quadrilha . O Palhoção servia para as escolas durante o dia. Ao que ficamos sabendo não houve o apoio as Quadrilhas, como em anos anteriores. Só em 2024 foram 18 quadrilhas patrocinadas . Este ano , procuramos saber , mas nem as redes sociais do Município de Sertânia fazem nenhuma referência a questão.

Essa falta de ação atual nos faz lembrar que é possível fazer diferente. Em 1998, quando estivemos à frente do Departamento Municipal de Cultura, vivemos esse mesmo cenário de Copa e São João. Junto com a então primeira-dama Cleide Ferreira, criamos um projeto para unir essas duas paixões. Lançamos um concurso de ornamentação de ruas com esse tema. O resultado foi um sucesso estrondoso. Mais de 20 ruas se inscreveram e o povo se mobilizou por conta própria.

A rua vencedora foi a Seis de Março, a rua da feira. No dia da vistoria, eles nos receberam com um trio de forró pé de serra e a banda de pífanos do mestre Zuza Galdino. Havia crianças jogando bola com a cabeça raspada no estilo do Ronaldinho, que era a moda da época.

Como prêmio, a rua ganhou a festa de São Pedro com banda ao vivo. Levamos para lá a exposição “São João em Sertânia”, do fotógrafo Djair Freire, que tinha acabado de fazer sucesso no Recife. Foi um momento de pura animação e alegria que envolveu toda a comunidade.

Aquele ano deixou uma lição clara: mesmo com pouco dinheiro, dá para fazer a diferença. Não é uma questão de grandes verbas, mas de ter gestão e vontade. É preciso ter criatividade, ouvir as pessoas que têm boas ideias e apostar na força do nosso povo. Sertânia merece reviver o orgulho de sua cultura e de suas tradições.

* Josessandro Andrade: poeta , compositor,  autor teatral e educador.