Deputado federal Gonzaga Patriota. Foto: Luis Macedo / Câmara dos Deputados
Em um debate presidido pelo deputado federal Gonzaga Patriota (PSB), nesta quarta (21), parlamentares discutiram a possibilidade de tirar parte da água do Rio Tocantins para abastecer o Rio São Francisco. Veja o tamanho do problema. As obras da transposição, que começaram orçadas em R$ 4,5 bilhões e que já vão em R$ 8,2 bilhões, já deveriam ter saído há três anos e ainda estão em 80% de realização. Agora o problema é outro: o temor com o nível das águas do Velho Chico. Para garantir a água para a transposição, os deputados querem uma transposição nova, das águas do Rio Tocantins para o São Francisco.
A discussão realizada na Câmara a princípio seria sobre a necessidade de aumentar a vazão do São Francisco para que ele seja destinado ao transporte de cargas. Com a evolução do debate, parlamentares, como o cearense Adail Carneiro, do PHS, afirmaram temer que a transposição do São Francisco fique pronta sem água suficiente para 390 municípios que sofrem com a seca no semiárido.
Representando o Ministério do Planejamento e Gestão, o coordenador-geral de Rodovias, Ferrovias e Hidrovias da Secretaria do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), Fábio Freitas, recomendou que se busque um caminho no orçamento para a transposição do Tocantins para o São Francisco, um modo mais curto para ampliar a capacidade do São Francisco. Na avaliação dele, porém, o ideal seria dividir as frentes de trabalho, criando uma primeira etapa com foco na transposição do Tocantins para o Francisco e uma segunda apenas para a integração da navegação.
A interligação é prevista no Projeto de Lei 6569/13, de Gonzaga Patriota.
Infográfico produzido pela comunicação da Câmara dos Deputados
ENTENDA A TRANSPOSIÇÃO DO RIO SÃO FRANCISCO
Devido à propaganda oficial, muita gente pensa que a transposição está plenamente funcional, o que não é verdade. Em 20 de agosto, a presidente Dilma Rousseff (PT) inaugurou uma etapa chamada “meta-piloto”, de 45 quilômetros de canais, na verdade uma espécie de teste da megaobra. No total, são mais de 30 barragens e bem mais de 400 quilômetros de canais – na versão original, toda a obra somava mais de 700 km. E ainda assim a transposição não atenderá à sua finalidade.
A transposição é composta de dois grandes canais. Um, o Eixo Norte, beneficiará Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba. O outro, Eixo Sul, abastecerá Pernambuco e Paraíba. Para cumprir seu objetivo, porém, ela depende do que se chamam “dedos” da transposição: complementos estaduais.
No Ceará, por exemplo, obras como a barragem do Castanhão. Em Pernambuco, sequer houve o início das obras do Ramal do Agreste, principal conexão entre a transposição e um conjunto de 1.100 quilômetros de tubulações que levarão a água a seu destino final nos municípios, a Adutora do Agreste (com obras lentas devido à crise).
Para se ter uma ideia do complicado cronograma, em 2007, quando a obra começou, a previsão do Estudo de Impacto Ambiental (Eia/RIMA) era de que a obra só ficasse pronta, com todos os seus complementos, em 2027. Imagine quando são considerados todos os atrasos.
Em 2012, ano em que a obra originalmente deveria ter sido concluída, eu ainda era repórter de economia do JC e percorri, com uma equipe do jornal, mais de 2.600 quilômetros de estradas de asfalto e locais de difícil acesso para produzir a reportagem especial Transposição – Novos Obstáculos.
O material abordou os preconceitos, dramas, lendas e toda a política envolvida na megaobra, que teve seu custo inicial orçado em R$ 4,5 bilhões. A cifra disparou por uma série de fatores, como erros crassos de engenharia e o boom do setor de construção.
Se quiser dar um mergulho no tema, pode clicar neste link e relembrar a versão online do especial. Abaixo segue em PDF a versão impressa do material, que conquistou o Prêmio CNH de Jornalismo Econômico na categoria Excelência Jornalística, no ano de 2012.