
A história das escolas radiofônicas que levaram alfabetização a comunidades rurais do Sertão do Pajeú na década de 1960 está sendo revisitada pelo cinema. Na primeira semana de setembro, começaram as gravações do curta documental “Aquilo que a Memória Amou 2”, dirigido pela cineasta pajeuzeira Silmara Marques.
As filmagens seguem até o dia 9 de setembro e passam por diferentes municípios do Pajeú, além de Bela Cruz, no Ceará, e Recife. A produção é financiada pela Lei Paulo Gustavo, por meio da LPG-PE Audiovisual, com apoio da Secretaria de Cultura de Pernambuco.
O filme refaz o caminho percorrido pelas ondas de rádio que chegavam às áreas rurais da região e eram utilizadas como instrumento de educação. A experiência estava ligada ao Movimento de Educação de Base (MEB), criado em 1961 a partir de uma iniciativa da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), e ganhou força no Pajeú com a participação da Rádio Pajeú, uma das emissoras mais antigas do interior pernambucano.
Além de ensinar leitura e escrita, as escolas radiofônicas tiveram impacto na organização das comunidades rurais e na formação de seus moradores.
“Elas tiveram um papel muito importante no Sertão do Pajeú. Pelas ondas do rádio, a educação chegava às comunidades rurais mais distantes, levando não apenas o aprendizado da leitura e da escrita, mas também esperança, conhecimento e novas possibilidades”, destaca Silmara Marques.
A diretora e pesquisadora também aponta a influência da experiência na participação social e política da população.
“Assim, ajudaram a transformar a vida das pessoas, fortalecendo a união, a participação e a consciência política nas comunidades rurais, contribuindo para tornar o Sertão do Pajeú uma região mais organizada e politizada do Estado de Pernambuco”, afirma.
Durante as gravações, a equipe realizou dezenas de entrevistas e produziu imagens que buscam reconstruir a atmosfera das escolas radiofônicas. Para o produtor executivo Leonardo Lemos, recuperar essa história também significa discutir os impactos da repressão sofrida pelo projeto após o golpe de 1964.
“Enquanto ferramenta de aprendizado e memória, um filme sobre as escolas é fundamental para a cidadania, porque a perseguição e a censura a elas pelo golpe de 1964 condenaram gerações ao analfabetismo. Precisamos refletir isso até hoje e nunca esquecer”, afirma o jornalista.
Cinema afogadense
A produção reúne profissionais de diferentes áreas, com participação expressiva de artistas e pesquisadores de Afogados da Ingazeira. Além de Silmara Marques na direção, Adeilton Rodrigues assina a pesquisa e Uilma Queiroz atua como consultora de roteiro e auxiliar de direção.
A produção executiva é de Leonardo Lemos, enquanto Isabella Lumara responde pela produção. Geovana Lima, discente da FASP, participa como auxiliar de pesquisa, com colaboração de Alexsandro Acioly. A equipe conta ainda com Richard Soares, responsável pela captação de som, e Josivan Veras, motorista.
A equipe da Caldo de Cana Filmes também participa do projeto, com Iberê Melo Barreto na direção de fotografia, Okoye Ribeiro Martins na assistência de fotografia e Ângelo Freire nos registros de still. Alexandreh assina a pós-produção de som.
O lançamento de “Aquilo que a Memória Amou 2” está previsto para dezembro, em evento ainda a ser definido, no histórico Cine São José.