Por Alvaro Góis, Professor. O resultado da pesquisa Quaest divulgada nesta terça-feira (29) foi a pior notícia que a governadora e candidata à reeleição Raquel Lyra (PSD) poderia receber a esta altura da disputa, a apenas cinco dias da eleição. Trata-se de um dos dois institutos de maior peso no país (ao lado do Datafolha), com visibilidade e repercussão multiplicadas pela cobertura da TV Globo, contratante do levantamento. A Quaest cravou empate em 42% no primeiro turno e em 44% no segundo. Os números são indigestos para o Palácio do Campo das Princesas e ainda mais duros para a chapa ao Senado, onde os candidatos governistas amargam posições secundárias e percentuais modestos: Eduardo da Fonte com 7% e Túlio Gadêlha com 3%.
As pesquisas da semana
A tabela reúne os levantamentos mais recentes divulgados por três institutos. Os números de primeiro turno são da pesquisa estimulada.
| Instituto (divulgação) | Raquel (1º T) | João (1º T) | 2º turno (Raquel x João) | Registro / amostra / margem |
| Real Time Big Data (28/09) | 43% | 45% | 45% x 46% | PE-06087/2026 · 1.600 · 2 p.p. |
| Quaest (29/09) | 42% | 42% | 44% x 44% | 1.302 · 3 p.p. |
| Instituto França (29/09) | 40,44% | 42,07% | não divulgado | PE-08681/2026 · 1.500 · 2,5 p.p. |
| Média simples dos três | 41,8% | 43,0% | — | ilustrativa, sem ponderação |
Fontes: Real Time Big Data, Quaest e Instituto França, conforme divulgação de Poder360, Carta Capital, CNN Brasil e Diario de Pernambuco. A média simples não pondera amostra, metodologia ou data de campo.

Gráfico 1 – Intenção de voto para governador de Pernambuco, 1º turno, por instituto
O que dizem os números
Pelo nível, o quadro é de empate técnico. No Instituto França, divulgado hoje pelo Poder360, João Campos tem 42,07% e Raquel Lyra 40,44%, diferença de 1,63 ponto dentro da margem de 2,5 pontos; foram ouvidos 1.500 eleitores entre 23 e 25 de setembro, e 9,12% não souberam responder. Na Real Time Big Data, João aparece com 45% contra 43% no primeiro turno e 46% a 45% no segundo, também dentro da margem de dois pontos. Na Quaest, a igualdade é total.
Pela tendência, a leitura favorece João. Na Quaest, ele subiu de 39% para 42%, enquanto Raquel avançou apenas de 41% para 42%: quem estava atrás alcançou quem estava na frente. Em abril, o Datafolha registrava João com 50% e Raquel com 38%; ao longo do inverno a governadora reverteu a diferença e chegou a abrir cinco pontos em 11 de setembro. A janela de vantagem se fechou na reta final.

Gráfico 2 – Evolução na Quaest, 1º turno
A média simples dos três institutos dá 41,8% para Raquel e 43,0% para João, vantagem de 1,2 ponto para o candidato do PSB, dentro das margens de erro das pesquisas. O que os dados autorizam afirmar é que o candidato do PSB tem o vento a favor e que a eleição será decidida no detalhe, não que haja um favorito consolidado. Vale registrar as diferenças de método: a Real Time Big Data usou entrevistas telefônicas e recrutamento digital, enquanto a Quaest faz entrevistas domiciliares presenciais, o que pode explicar parte das diferenças entre os números.
Segundo turno: empate em aberto
No cenário de segundo turno, a Quaest mostra 44% a 44% e a Real Time Big Data traz 45% para Raquel e 46% para João, os dois resultados dentro da margem de erro. O Instituto França não divulgou esse cenário.

Gráfico 3 – Cenários de 2º turno, Raquel Lyra x João Campos
Senado: chapa governista fica para trás
Na disputa pelas duas vagas, a Quaest mostra Eduardo da Fonte em 7% e Túlio Gadêlha em 3%. O Instituto França, que trabalha com a soma dos dois votos, confirma o desenho: Marília Arraes (PDT) lidera com 34,23%, seguida de Humberto Costa (PT), com 24,99%, e Mendonça Filho (PL), com 23,75%. Eduardo da Fonte (PP) tem 13,47% e Túlio Gadêlha (PSD), 9,84%. A distância para o segundo colocado é grande demais para ser recuperada apenas com o fôlego da reta final. Os dois institutos usam metodologias distintas de apresentação, portanto os percentuais não são diretamente comparáveis.

Gráfico 4 – Senado, soma dos dois votos (Instituto França, 23 a 25/09)
Riscos colaterais para Raquel
Esse quadro abre margem para dois riscos imediatos. O primeiro é o de prefeitos e lideranças do interior, pragmáticos por definição, iniciarem um movimento discreto de migração ou de “cruzar de braços” na reta final, comportamento clássico quando a base sente o abalo da candidatura majoritária. O segundo é a ativação do voto útil: a perspectiva de João Campos liquidar a disputa ou chegar forte ao segundo turno pode drenar a candidatura de Ivan Moraes (PSOL), atraindo o eleitorado progressista que busca definir a eleição sem prorrogação.
A sangria nos números ocorre na esteira de dois episódios de grande repercussão: o desgaste do vídeo polêmico sobre o caso da laqueadura, sobretudo entre o público feminino, conforme constatou a própria Quaest, e a demonstração de força da visita do presidente Lula ao Recife para apoiar João, ato que muitos aliados de Raquel torciam para que não se concretizasse. Soma-se a isso a trajetória ascendente do candidato do PSB diante da estagnação da governadora, sem barricadas eficazes à vista para conter os ataques nos flancos abertos na imagem dela. Nem mesmo o peso da máquina administrativa estadual parece ter tempo hábil para maturar entregas ou reverter a opinião pública em apenas 120 horas.
O debate da Globo, realizado na noite desta terça no Recife, foi dominado pela segurança pública, segundo o Blog do Magno Martins. João cobrou as entregas prometidas pela governadora, e Raquel respondeu apontando as condições em que recebeu a saúde e a segurança e associando o adversário às gestões anteriores do PSB. O impacto só aparecerá nas urnas, já que nenhum instituto deve divulgar novo levantamento tão perto da data.
O tempo escasso e a pressão do resultado podem empurrar a campanha de Raquel para uma postura mais agressiva. O movimento, porém, carrega elevado risco tático: investidas desmedidas podem soar como desespero ao eleitor moderado e inflar a rejeição da própria governadora, sobretudo se o arsenal continuar limitado a pontos que, até agora, não furaram as bolhas políticas. Do lado de João, o desafio é o inverso: administrar a tendência sem cometer os erros de quem chega na frente.
O que esperar
Faltam cinco dias para as urnas de 4 de outubro. Os números não anunciam um vencedor, mas mostram um vento: em poucas semanas, a vantagem que a governadora carregava desde o inverno virou empate nas pesquisas de maior alcance. A palavra final é do eleitor pernambucano.