OPINIÃO – Em Sertânia, o bolsonarismo não se cria

Por Álvaro Góis

O Brasil acordou na segunda-feira dividido ao meio. Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, uma diferença de mais de 4,4 milhões de votos, um fato histórico na democracia brasileira jovem e recém ameaçada. Em Sertânia, a conversa foi outra: 85,61% para Lula, 17.895 votos, e 14,39% para Flávio, 3.007 votos. São 33,8 pontos percentuais de distância da média nacional, e quase seis votos para Lula a cada voto no candidato do PL.

O número, sozinho, já impressiona. O que o torna mais interessante é a trajetória entre os turnos. No primeiro, em 4 de outubro, Flávio teve 3.071 votos em Sertânia (15,29%). No segundo, teve 3.007: perdeu 64 votos, mesmo com 450 eleitores a mais indo às urnas. Lula foi de 16.273 para 17.895 votos no município. Os dados são agregados e não dizem de onde veio cada voto, mas mostram algo claro: o voto bolsonarista local bateu num teto e não cresceu quando a disputa se polarizou.

Não é só um resultado!

Seria fácil tratar isso como curiosidade eleitoral. Eu prefiro tratar como pista. Em um ensaio escrito entre os dois turnos de 2018, o pesquisador Felipe Catalani define o bolsonarismo menos como forma de governo e mais como fenômeno social e ideológico: um modo de organizar medo, ressentimento e a sensação de poder que vem de ameaçar o outro. Para ele, essa ideologia prospera num país de tecido social esgarçado, de impotência real compensada pelo gesto de fazer temer, de inimigos conspiratórios e de notícias falsas que circulam sem remetente, e fui vítima desse modus operandi bozolóide neofascista, que atacam as pessoas e denigrem sua imagem, como diz o poeta Chico Buarque Vai passar/Nessa avenida um samba popular/Cada paralelepípedo da velha cidade/Essa noite vai se arrepiar/Ao lembrar/Que aqui passaram sambas imortais/Que aqui sangraram pelos nossos pés/Que aqui sambaram nossos ancestrais…

Nossa cidade, Sertânia tem vida associativa densa: associações comunitárias nos distritos, cultura popular, teatro, poetas populares, igrejas, escolas, cursinho popular e campus da universidade que funcionam como pontos de encontro e de debates, além de saber o que Lula e o PT fizeram para a Cidade. Quem pertence a algo não precisa de ameaça para se sentir forte. Água, renda básica, energia para todos, quadras, creches, farmácia popular, escola e universidade chegaram ao interior como políticas públicas que a população vive como conquista, e um discurso que promete acabar com a “mamata” soa, ali, como ataque a algo que é considerado seu. Outro ponto a ser debatido foi que o antipetismo ficou sem espaço para a conspiração: o complô precisa de distância, e Lula, pernambucano e nordestino, é figura de convívio, não de fantasia. Numa cidade de 27 mil eleitores, a mentira tem remetente, e quem o repassa pode ser cobrado pelo vizinho.

O que o resultado não diz

Há ressalvas, e elas importam. 3007 eleitores votaram em Flávio, quase um em cada nove inscritos no município, e merecem respeito, não caricatura. Mas uma conclusão o resultado autoriza. Em Sertânia, o bolsonarismo não consegue se reproduzir como força social dominante. Não porque o povo do Sertão seja imune por natureza, mas pelo que ali se construiu e se mantém na memória coletiva.

Alvaro Góis, Professor e Presidente do Partido dos Trabalhadores em Sertânia